Pensando em termos de dores, encontros furtados e busca por uma casa,
recorro à literatura. Mary Shelley é a escritora do renomado romance gótico
“Frankenstein: ou o prometeu moderno”, escrito, em 1816, quando ela tinha 19 anos e passava por um período de luto e profunda solidão (ainda que acompanhada). É como se ela própria se sentisse monstruosa, tendo perdido seu filho ainda bebê e estando numa relação amorosa que a feria reiteradamente. Foi neste contexto de profundo sofrimento que o romance foi escrito, como uma tentativa de tradução de si mesma.

No romance, Vitor Frankenstein é o nome do médico que decidiu criar um ser humano como se fizesse um patchwork, pegando membros de pessoas já mortas e utilizando a tecnologia elétrica, recém descoberta da época. Assim nasce uma criatura recortada, colada a partir da história e do desejo de outros, mas que não recorda o próprio passado, não tem perspectiva de futuro, mas sente profundamente sua condição e a rejeição que sofre dos humanos por simplesmente existir. Nas palavras da criatura (SHELLEY, 2015, p.211):

“Mas onde estavam meus amigos e minhas relações? Não tivera um pai a testemunhar meus tempos de bebê, nem a bênção de uma mãe, seus sorrisos e carícias; ou, se tivera, meu passado inteiro agora era um borrão, um vazio escuro no qual eu nada distinguia. Em minha lembrança mais remota, sempre fui este mesmo ser, deste tamanho, desta altura. Até ali jamais vira outro que se assemelhasse a mim ou quisesse ter alguma relação comigo. O que eu era? A pergunta surgia, recorrente, e a resposta não passava de resmungos.

O que o “monstro” criado por Vitor Frankenstein queria era o amor, o encontro genuíno com o outro, era a solidariedade e a reciprocidade que ele assistia entre os humanos. Em suma, o monstro foi criado para ser humano e buscava sua humanidade, queria companhia, queria uma relação dialógica, buscava pelo Eu-Tu, por ser visto em sua inteireza, contudo, só encontrava desprezo em seu caminho. Sua existência assustava os demais. Sem o outro, sem a relação, não havia a construção de significado da sua vida, afinal, nem mesmo um nome lhe foi dado.

Jefrey Cohen em seu texto “A Cultura dos Monstros: sete teses” elabora uma ideia de que o corpo do monstro é um corpo cultural. Isto significa que toda a ideia de monstruosidade é construída num arsenal cultural. Assim, há constrói-se um ideal de humano e seu antagônico seria a ideia de monstro. Isto serve para pensarmos os personagens do cinema e da literatura (como o Frankenstein) ou de lendas míticas, mas também serve para refletirmos sobre quem são as figuras, em nossa sociedade, que são personificadas como monstruosas ou que, no limite, passam a perceber si mesmas como pintadas de monstro (como a autora Mary Shelley). Nas palavras do autor “qualquer tipo de alteridade pode ser “construída através” do corpo monstruoso, mas, em sua maior parte, a diferença monstruosa tende a ser cultural, política, racial, econômica e social” (COHEN, 2000, p.32, grifos meus). Em outros termos, a diferença só é vista como monstruosa na medida em que os padrões de normalidade são rígidos a um ponto isotrópico, ou seja, que preza pelo linear e estável.

Numa sociedade que preza pelo homogêneo e pelo ideal, a diferença parece mesmo monstruosa. O monstro de Frankenstein pode ser visto como a manifestação da diferença, feita de carne, e denuncia os portões da diferença apenas por existir com seus recortes. Por outro lado, se pensarmos na autora Mary Shelley, também percebemos o monstro a partir de uma ótica menos literal e mais emocional que buscava acolhimento, que buscava um anfitrião e ansiava por ser “recebida”. Assim, a história da autora e trajetória do seu protagonista fictício s espelham, ambos buscavam por um lar, buscavam transcender a atitude Eu-Isso, experenciar por um encontro Eu-Tu e serem percebidos em sua dor.

Neste sentido, o ambiente terapêutico, a abordagem dialógica, a ética da morada, um diálogo no entre implica, também, em acolher os diferentes monstros em seus mistérios e não os matar, mas agir em nome da legitimidade e singularidade da sua humanidade. Implica, como propõe Cardela (2015) e como borda Laura Berbert
(@lauraberbert) em “viver aberta ao amor e ao mistério”.

FONTE: @lauraberbert

No caso de Mary Shelley, encontrou uma voz e uma casa na literatura. Primeiramente seus livros levaram a assinatura do marido como autor do romance, depois passou a ser reconhecida pela autoria do livro e ouvida, de alguma maneira, em seu grito. No caso do monstro, criação de Vitor Frankenstein, teve o fim da sua vida sem humanização, sem parceria e compartilhamentos, sem “ser recebido”.

Afinal, “precisamos do humano para nos humanizarmos” (FRAZÃO, 2020, p.15) e o personagem teve uma vida sem contatos e sem casa. A sensibilidade em abrigar questões monstruosas de si mesmo e do outro pode ser um ponto de morada. Para tal, há sustentação numa abordagem dialógica e também a compreensão social e histórica de quem é apontado como monstro. Assim, quando pensamos em ética em Gestalt, estamos partindo de uma compreensão mais ampla, que não se refere unicamente a um conjunto de normas e regras estabelecidas por um documento normativo.

Trata-se de um modo de estar, vem com uma estética que é forjada na potência do encontro. É reconhecer o caráter “mágico” que pode ocorrer em terapia, aquilo que foge das explicações, que foge da lógica normativa, que se mostra monstruosa (pois fora do padrão, pois longe do ideal) e que busca morada. Para isso, é preciso amorosidade, é preciso responsabilidade com o mundo, com o outro, com o ofício realizado.

REFERÊNCIAS
CARDELLA, Beatriz. Relação, Atitude e Dimensão Ética do Encontro Terapêutico na
Clínica Gestáltica. In: FRAZÃO, Lilian. FUKUMITSU, Karina (orgs). A clínica, a
relação psicoterapêutica e o manejo em gestalt-terapia. São Paulo : Summus,
2015.
COHEN, J. A Cultura dos Monstros: sete teses. IN: COHEN, J. Pedagogia dos
Monstros: os prazeres e os perigos de fronteiras. Belo Horizonte : Autêntica, 2000.
FRAZÃO, Lilia. Ética e Sofrimento Humano. IN: FRAZÃO, Lilian. FUKUMITSU, Karina
(orgs). Enfrentando Crises e Fechando Gestalten. São Paulo : Summus, 2020.
HYCNER, Richard. Relação e cura em Gestalt-terapia. São Paulo : Summus, 1997.
SHELLEY, Mary. Frankenstein: ou o prometeu moderno. São Paulo : Penguin
Classics Companhia das Letras, 2015


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